ESCREVA EM UM ÚNICO PARÁGRAFO SUCINTO QUAL É A TESE DESTE TEXTOS DE CONTARDO CALLIGARIS
UM JOVEM não sabe o que ele está a fim de fazer da
vida, e os pais pedem que eu descubra qual é o desejo do filho, de modo que ele
possa escolher o vestibular e a profissão que ele "realmente"
gostaria.
Na mesma semana, encontro um adulto que acha que,
de fato, nunca fez nada por desejo. Embora bem-sucedido, queixa-se de que suas
escolhas (profissionais e amorosas) sempre teriam sido circunstanciais, efeitos
de oportunidades encontradas ao longo do caminho. Ele pede, antes que seja
tarde, que eu o ajude a descobrir qual é "realmente" o seu desejo.
Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo: quem viver
segundo seu desejo será, no mínimo, mais alegre. Esta é mesmo uma boa definição
da alegria: a sensação de que nosso desejo está engajado no que estamos
fazendo, ou seja, de que nossa vida não acontece por inércia e obrigação.
Inversa e logicamente, muitos estimam dever sua (grande ou pequena)
infelicidade ao fato de terem dirigido a vida por caminhos que - eles declaram
- não eram exatamente os que eles queriam.
Pois bem, esse pressuposto e os pedidos que recebi
se chocam com esta constatação: o "nosso desejo" nunca é UM desejo
definido por UM objeto ou por UM projeto. Não existe, nem escrito lá no fundo
escondido de nossa mente, UM querer definido, que poderíamos descobrir e, logo,
praticar com afinco e satisfação porque estaríamos fazendo aquela coisa ou
caçando aquele objeto aos quais éramos, por assim dizer, destinados. Nada disso:
de uma certa forma, todos os objetos e os projetos se valem, e nenhum é
"nosso" objeto ou projeto específico. Ou seja, nós desejamos sempre
segundo as circunstâncias, os encontros, as oportunidades - segundo as
tentações, se você preferir.
Somos volúveis? Nem tanto, pois cada objeto e
projeto não substitui necessariamente o anterior. O que acontece é que desejar
é uma atividade inventiva a jato contínuo.
Por consequência, mesmo quando estamos alegremente
convencidos de estar fazendo o que queremos com nossa vida, nunca estamos ao
abrigo do surgimento de desejos novos.
Claro, podemos aceitar esses desejos novos. Por
exemplo, em "As Confissões de Schmidt" (que não é um grande filme),
de A. Payne, com Jack Nicholson, o protagonista acorda de noite, olha para sua
mulher de sei lá quantos anos e se pergunta estupefato: "Quem é esta
mulher que dorme na minha cama?". Logo, ele dá um rumo novo à sua vida,
colocando o pé na estrada. Mas a expressão de seus novos desejos é fortemente
facilitada por duas circunstâncias: providencialmente, o protagonista se
aposenta e fica viúvo. Nessas condições, escutar novos desejos fica fácil, não
é?
Agora, imaginemos alguém que esteja no meio de sua
vida profissional e num bom momento de sua vida amorosa. Nesse caso,
provavelmente, o novo desejo será silenciado, reprimido, menosprezado
("deixe para lá, é besteira"). Resultado: o indivíduo continuará
declarando que está vivendo a vida que ele queria (e, em parte, será verdade);
só que, de repente, sem entender por quê, ele perderá sua alegria.
Por que razão nosso indivíduo negligenciaria seus
novos desejos? Simples: por serem novos, eles acarretam a ameaça de uma ruptura
no presente: afetos e laços que poderiam ser perdidos, medo da solidão e
preguiça dos esforços necessários para reinventar a vida.
Infelizmente, essa negligência tem um custo alto.
Sempre entendi assim a "Metamorfose", de Kafka: alguém acorda, e o
que até então era uma vida normal e legal, de repente, aos seus olhos, é uma
vida de barata.
Nota útil para a clínica da depressão. Às vezes,
procuramos em vão as causas de uma depressão; será que houve lutos ou perdas?
Nada disso; está tudo bem, trabalho, família, filhos e tal, mas o indivíduo
entristece, volta a fumar e a beber como se quisesse encurtar a vida, engorda
como se estivesse num mar de frustração e precisasse de gratificações
alternativas.
Em muitas dessas vezes, a origem da depressão não é
uma perda, nem propriamente uma frustração, mas a aparição de um desejo novo
que não foi reconhecido. E os novos desejos, sobretudo quando são silenciados,
desvalorizam a vida que estamos vivendo.
Moral da fábula: 1) Não existem vidas
definitivamente resolvidas, pois novos desejos surgem sempre; 2) É bom
reconhecer os novos desejos, mesmo que deixemos de realizá-los.
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