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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PROPOSTA DE REDAÇÃO COM BASE EM TEXTO DE CONTARDO CALLIGARIS SOBRE AMY WINEHOUSE.



Escreva um texto que busque responder a seguinte questão:  é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez?




Primeiro leia o texto - outro texto - de Contardo, com a mesma temática. Este aqui já foi solicitado na Fuvest, na parte de interpretação de textos.



Texto para as questões de 01 a 08 
O filme Cazuza – O tempo não pára me deixou numa espécie de 
felicidade pensativa. Tento explicar por quê. 
 Cazuza mordeu a vida com todos os dentes. A doença e a morte 
parecem ter-se vingado de sua paixão exagerada de viver. É impossível 
sair da sala de cinema sem se perguntar mais uma vez: o que vale 
mais, a preservação de nossas forças, que garantiria uma vida mais 
longa, ou a livre procura da máxima intensidade e variedade de 
experiências? 
 Digo que a pergunta se apresenta “mais uma vez” porque a 
questão é hoje trivial e, ao mesmo tempo, persecutória. (...) 
Obedecemos a uma proliferação de regras que são ditadas pelos 
progressos da prevenção. Ninguém imagina que comer banha, fumar, 
tomar pinga, transar sem camisinha e combinar, sei lá, nitratos com 
Viagra seja uma boa idéia. De fato não é. À primeira vista, parece lógico 
que concordemos sem hesitação sobre o seguinte: não há ou não 
deveria haver prazeres que valham um risco de vida ou, simplesmente, 
que valham o risco de encurtar a vida. De que adiantaria um prazer que, 
por assim dizer, cortasse o galho sobre o qual estou sentado? 
 Os jovens têm uma razão básica para desconfiar de uma moral 
prudente e um pouco avara que sugere que escolhamos sempre os 
tempos suplementares. É que a morte lhes parece distante, uma coisa 
com a qual a gente se preocupará mais tarde, muito mais tarde. Mas 
sua vontade de caminhar na corda bamba e sem rede não é apenas a 
inconsciência de quem pode esquecer que “o tempo não pára”. É 
também (e talvez sobretudo) um questionamento que nos desafia: para 
disciplinar a experiência, será que temos outras razões que não sejam 
só a decisão de durar um pouco mais?
(Contardo Calligaris, Folha de S. Paulo)



O paradoxo de Amy Winehouse


Você prefere imaginar sua filha errando para sempre num shopping ou perdida numa balada perigosa?



Stéphanie, minha enteada, tem 11 anos: ainda é menina, mas é já moça. Assim que foi informada da morte de Amy Winehouse, ela veio até minha escrivaninha e, simulando o choro inconsolável de um nenê, perguntou: "Você está sabendo que morreu minha cantora preferida?". 
Justamente por ela simular o choro e se esforçar para ser engraçada, pensei que devia estar sofrendo muito. A coisa se confirmou no meio da noite, quando Stéphanie acordou, e, para que reencontrasse o sono, foi preciso que alguém conversasse com ela sobre a vida e a morte de Amy. 
Teria gostado de poder oferecer a Stéphanie uma boa explicação pela dureza da vida e da morte de sua cantora preferida -por exemplo, dizer que Amy teve uma infância muito triste, que nada em sua vida adulta pôde compensar; ou, então, que ela teve sorte na vida profissional, mas não no amor, e se perdeu nas drogas e no álcool por desesperos sentimentais. Mas o que sei da infância e dos amores de Amy é só fofoca.
Sem mentir nem inventar, melhor deixar Stéphanie lidar com este enigma: alguém pode ter um extraordinário talento, gostar de exercê-lo, alcançar sucesso e reconhecimento, amar e ser amado por um ou mais parceiros e, mesmo assim, esbarrar num vazio que nada consegue preencher.
Stéphanie também tinha lido sobre a maldição dos 27 anos, que, antes de Amy, teria pego Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain etc. Como é normal na sua idade, ela parecia sensível à "glória" de morrer jovem (ou talvez de não viver até se tornar tão chato quanto os adultos). 
Foi fácil desvalorizar a morte precoce mostrando que ela é, justamente, um ideal muito antigo: o rock apenas retomou o lugar comum romântico do poeta que vive tão intensamente que, como Ícaro, queima suas asas e cai antes da hora, em pleno voo. Em suma, eu não tenho nada contra viver intensamente; ao contrário, artista ou não, acho que a gente deve viver da maneira mais intensa que der. Mas resta o seguinte: a ideia de que viver intensamente consistiria, por exemplo, em encher a cara de absinto ou ópio é velha de 200 anos.
Agora, há uma coisa que pensei e que não disse a Stéphanie: no fundo, para mim, a história de Amy tem um valor pedagógico, não só (obviamente) como exemplo dissuasivo ("Olhe o que pode lhe acontecer se você beber ou se drogar"), mas também como exemplo "positivo". 
Como assim, positivo??? 
Concordo, a morte de Amy é um horror e uma estupidez, mas também lembra que viver é uma coisa séria, com apostas e riscos sérios, a começar pelo risco de perder a própria vida antes da hora. Você dirá: "Alguém duvida disso?". Pois é, constato que há um monte de gente tentando convencer nossas crianças de que a vida é feita de gritinhos, compras e namoricos que só servem para trocar trivialidades online com amigos e amigas.
Até a morte de Amy, eu pensava que o cantor preferido de Stéphanie fosse Justin Bieber. Ora, é possível que Bieber seja uma espécie de Dorian Gray (uma cara de porcelana que esconde dramas e anseios humanos), mas o fato é que ele promove uma imagem de bom moço num mundo intoleravelmente cor-de-rosa. 
"E daí?", dirão alguns pais, "não seria esse o adolescente ideal com quem deveríamos gostar que nossas filhas saíssem, em sua primeira ida ao cinema sozinhas com um garoto?". E acrescentarão: "Você quer o quê, que sua enteada seja parecida com Justin Bieber ou com Amy Winehouse?". 
Claro, é um golpe baixo: ninguém quer que sua filha acabe como Amy. Mas devolvo a pergunta: será que Justin Bieber é mesmo melhor? Stéphanie será mais protegida se ela permanecer numa pré-adolescência à la fã de Justin Bieber. Mas protegida de quê, se não da própria vida? Entre imaginá-la errando para sempre num corredor de shopping e imaginá-la numa balada que pode acabar na sarjeta à la Amy, a escolha não é fácil. E, na comparação, Amy passa a simbolizar minha esperança (e meu receio, indissociavelmente) de que Stéphanie cresça e se torne mulher, com desejos próprios, fortes. 
É o paradoxo de Amy: o que você prefere, uma filha que se perca tragicamente nos excessos do desejo ou uma filha que chegue à vida adulta sem ter conhecido outros desejos do que os que surgem nas conversas sobre marcas de mochilas e sapatos?

ccalligari@uol.com.br
@ccalligaris

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