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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Outra proposta, 2 de janeiro de 2012


redija uma dissertação em prosa que busque responder a seguinte questão: 

O racionalismo do homem é irracional?


“Gatos expiatórios
José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 15/05/11
Felinos pagam com a pele o fato de fazerem parte da teia de relacionamentos que nos humanizam
O encontro, há poucos dias, de 35 gatos mortos ou se debatendo em dolorosa agonia no Morro São Bento, em Ribeirão Preto, numa reserva florestal urbana em que se situa o zoológico local, está sendo apurado pela Delegacia local de Proteção aos Animais. Em março, outros dez gatos foram encontrados mortos num condomínio fechado da cidade. Em todos esses casos, indícios fortes de envenenamento. Casos como esses se repetem em diferentes lugares do Brasil. Em 2005, 35 gatos foram achados mortos num parque público de Porto Alegre. Em 2008, vários foram mortos na zona sul do município de São Paulo. Em 2009, 20 desses animais pereceram em Botucatu. Em 2010, 30 foram mortos num parque público de Fortaleza e mais 4 no início de 2011. São os casos que ou geraram clamor público ou motivaram a intervenção da polícia.
Embora os gatos sejam as vítimas preferenciais dessa violência, também os cães têm sido por ela alcançados. Em Sales Oliveira (SP), em 2010, entre cães e gatos, 40 animais foram mortos. Penápolis (SP) é um município que faz a contagem oficial de cães e gatos mortos recolhidos pela prefeitura. Nos primeiros cinco meses de 2008, foram recolhidos 759 felinos, 11,6% mais que no mesmo período do ano anterior, enquanto o número de cães caía 30%, embora o número absoluto de cães fosse duas vezes maior que o de gatos. É possível que nem todos tenham sido envenenados, embora a inquietação da população e a mobilização da polícia sugiram que sim''.

'De todos os animais, o homem é o único que é cruel. Ele é o único que causa dor pelo prazer de fazê-lo.' Mark Twain"

A Racionalidade IrracionalEu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno. 
Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra? 
Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer. 
Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias. 

José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago' 



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