"Os sentimentos mais genuinamente humanos logo se desumanizam na
cidade."Fonte - A Cidade e as SerrasAutor - Queirós , Eça
O Egoísmo do
Homem das CidadesA miséria parece uma secreção do progresso, da
civilização. Não é nos campos (até em plena crise), onde a vida é simples e sem
ambições, que a miséria se torna aflitiva, dramática. A sua tragédia sem
remédio desenvolve-se antes nas cidades, nas grandes capitais, tanto mais
insensíveis e duras quanto mais civilizadas. A mecanização, o automatismo do
progresso que transforma os homens em máquinas, isolam-no brutalmente
substituindo os seus gestos e impulsos afectivos por complicadas e frias
engrenagens. O homem das cidades, modelado, esculpido na própria luta com os
outros que lhe disputam o seu lugar ao sol, é talvez, sem reparar, a encarnação
do próprio egoísmo.
António de Oliveira Salazar, in 'Salazar: O Homem e a Sua Obra'
António de Oliveira Salazar, in 'Salazar: O Homem e a Sua Obra'
‘’Dentro de
alguns meses vai nascer um bebê histórico. Será o 7.000.000.000º habitante do
planeta. E provavelmente nascerá em uma cidade, já que hoje mais de metade da
população mundial vive em cidades, algo que também é novo.
Em 2008 o número de
habitantes urbanos superou a população rural pela primeira vez.
Esse processo de
urbanização vem sendo muito rápido. De acordo com a ONU, a população urbana
passou de 13% do total mundial em 1900 (220 milhões de pessoas) para 29% (732
milhões) em 1950, saltando em seguida para 49% (3,2 bilhões) em 2005. (...)
Como
sabemos, contudo, as grandes cidades latino-americanas estão repletas de problemas:
tráfico, criminalidade, deficits, corrupção e o eterno atraso da oferta de
serviços públicos, em relação às necessidades de transportes, água, saúde, eletricidade, habitação, etc.
Esses problemas
crônicos explicam por que o índice de crescimento econômico das dez cidades
maiores vem sendo menor que o de seus países. De acordo com o MGI, desde 1970
os índices de crescimento econômico de São Paulo e Rio de Janeiro vêm caindo,
estando hoje inferiores ao crescimento do Brasil.
A Cidade do México
também vem apresentando desempenho pior que o das 45 cidades mais populosas do
país. Das dez maiores cidades da América Latina, apenas Lima e Monterrey vêm
tendo desempenho melhor que seu país.
Em vista da
velocidade com que se movem as variáveis associadas à urbanização, é urgente
agir para que as grandes cidades não se transformem em uma carga pesada que
afunde seus países’’.
É com
esse pensamento que o brasileiro Jaime Lerner começa sua palestra na
conferência do TED. O paranaense ganhou destaque no cenário internacional da
década de 70, quando liderou a revolução que transformou a cidade de Curitiba
em exemplo de planejamento sustentável, transportes públicos eficientes,
respeito ao meio ambiente e foco nas pessoas. No vídeo, ele conta de forma bem
humorada a chave para transformar as cidades em soluções para problemas
globais, como as mudanças climáticas.
Lerner afirma que todas as cidades do mundo podem ser
melhoradas em menos de três anos, independente de escala ou de recursos
financeiros. “Todo problema de uma cidade tem de ter sua própria equação de
co-responsabilidade”, afirma. Ela conta que um dos segredos para isso é o
design urbano. “Toda cidade tem seu próprio design. Mas para fazer acontecer,
às vezes você tem de propor um cenário e uma ideia que todos, ou a grande
maioria, irão ajudá-lo a fazer acontecer”.
Para isso, é preciso pensar em toda a estrutura da
cidade, torná-la mais conectada e menos segmentada. E para fazer com que as
pessoas circulem por ela de forma eficiente e menos agressiva é preciso
combinar todos os meios de transportes existentes em um modelo único, sem fazer
com que eles briguem pelo mesmo espaço.
Exemplo
desse modelo é a Rede
Integrada de Transporte (RIT), sistema de mobilidade desenvolvida na
cidade de Curitiba durante sua gestão como prefeito da cidade. Durante a
palestra, Lerner fala sobre a criação e o funcionamento da RIT e como foi
preciso 25 anos até que outra cidade (Bogotá) se inspirasse a fazer o mesmo.
Hoje, o sistema já é referência para dezenas de
outras cidades espalhadas pelo mundo. “Isso significa que duas coisas:
mobilidade e sustentabilidade, estão se tornando muito importantes para as
cidades”, afirma. Ele garante que a importância dessa disseminação é vital, e
não apenas para o local onde a mudança está sendo feita. “Toda cidade, apesar
dos problemas normais, têm um papel muito importante em conviver com toda a
humanidade”.
Outra dica do arquiteto é trabalhar de forma
rápida, sem perder muito tempo com planejamentos. “Não podemos ser tão
prepotentes e pensar que temos todas as respostas. É importante começar e ter a
contribuição de pessoas, e elas podem ensinar você se você não estiver no
caminho certo”
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